Início » Entenda » O ministério cristão no local de trabalho

O ministério cristão no local de trabalho

workplace evangelism

Há muitas formas de ministério cristão no local de trabalho. Provavelmente, as mais comuns são grupos de oração, grupos de estudo bíblico, e discipulado programado. Além disso, há o movimento de missão empresarial, que tem tomado forma nos últimos vinte anos, mas ainda é bastante desconhecido fora das agências missionárias e dos cursos de missiologia. Felizmente um número significativo de líderes empresariais compreendeu que “alimentar os cinco mil” pode ser feito hoje em dia através da atividade evangelística objetiva que é o desenvolvimento de empresas entre os pobres.

Quando Jesus alimentou os cinco mil, ele tinha entendido que perderia sua audiência se a fome os distraísse do seu ensino. Em vez de lhes dizer para ir embora, comer e voltar mais tarde, ele os fez sentar e providenciou uma refeição. Os pobres, com frequência, são distraídos pelas demandas da simples sobrevivência, e muitos trabalham sete dias por semana só para ficar vivos. Na verdade, por volta de 15.000 pessoas morrem todo dia no mundo simplesmente porque são pobres demais para chegar ao dia seguinte. Não têm tempo para uma mensagem religiosa que, no fundo, é tão vazia como “aqueça-se e alimente-se” (Tg 2.16) dito a um estômago vazio.

Os programas tradicionais de saúde e desenvolvimento fracassaram totalmente. Criaram dependência, privando seus beneficiários da oportunidade de trabalhar, um traço que Deus quis que fizesse parte de ser humano quando colocou Adão no jardim do Éden “para cultivá-lo e cuidar dele” (Gn 2.15). Sem trabalho realizador e mantenedor, reduzidas a uma caricatura de ser humano, as pessoas definham, perdendo a esperança de ser o que Deus quis que fossem.

Um dos impactos mais importantes do trabalho está nas trocas. As economias são construídas sobre a dinâmica da rede intrincada de comércio entre os vários atores do mercado. O comércio requer um nível de confiança na sociedade, fazendo com que influências democratizantes floresçam. O comércio promove a cooperação e, depois, à medida que cresce a complexidade do mercado, a colaboração cada vez mais profunda, realçada por crescente transparência. As modernas empresas globais descobriram que suas maiores oportunidades estão na troca de informação. Tijolo e argamassa, máquinas e inventários não chegam mais nem perto da medida de sucesso que já foram. Hoje em dia, o capital intelectual com frequência vale mais que dinheiro.

O mercado comprova a validade da Teoria do Equilíbrio, de Nash, que diz que chegamos a momentos no jogo em que ninguém pode avançar sem a cooperação de outro jogador. Imagine os resultados do jogo se todos os jogadores cooperam entre si. Da mesma forma, só veremos um resultado que beneficia todos os jogadores se todos agregarem valor em vez de insistirem na concorrência. Só existe a possibilidade de haver vencedores e perdedores se todos puderem vencer. Isso requer algum sacrifício de potencial, pelo menos no curto prazo, pelos jogadores que têm a maioria das fichas. Mas o desenvolvimento econômico dos últimos duzentos anos mostra que tentar segurar as fichas acaba “enferrujando nosso ouro” (Tg 5.3) sem aumentar os rendimentos dos nossos talentos (Mt 25.14-30).
Os cristãos “ricos”, que, por estranho que pareça, constituem a maioria da população de classe média que vai aos cultos nos países desenvolvidos, pelo menos na comparação da distribuição global de riqueza, têm caído em duas armadilhas importantes em seu pensamento econômico. A primeira é, concordemos ou não, a ideia de que estamos jogando um jogo que fecha em zero: o bolo só tem um número X de fatias, e temos de lutar pelo nosso pedaço e depois segurá-lo firme. Como já mencionei, o crescimento da riqueza nos últimos dois séculos prova que quem pensa assim está enganado. Deus quer que a abundância que há na terra seja multiplicada, e deu à raça humana a capacidade intelectual para fazer isso. Em segundo lugar,tendemos a pensar que na verdade há pouco que podemos fazer, como indivíduos ou famílias, para realmente fazer diferença. Isso é verdade enquanto nosso raciocínio está isolado, como indivíduos ou famílias. Porem nós somos a igreja. Somos o único corpo de Cristo. Como tal, temos um poder incrível, na atuação do Espírito Santo em e através de nós, e no poder prático da ação coletiva.

Brinquemos um pouco com os números. Nos Estados Unidos há por volta de 313 milhões de habitantes, dos quais mais de 75% afirmam ser cristãos, o que dá mais ou menos 235 milhões. O tamanho médio de uma família americana é de 2,6 pessoas, o que dá 90,3 famílias cristãs. O que aconteceria se cada família se comprometesse a dar 20 dólares por mês para o desenvolvimento de pequenas empresas entre os pobres, como esforço evangelístico? Arredondando, 90 milhões de famílias arrecadariam 1,8 BILHÕES de dólares POR MÊS! Se essa quantia fosse investida na promoção de negócios e obtivesse um retorno de 2,5% ao ano, o resultado acumulado em dez anos passaria de 245 milhões, mais que o PIB de Portugal (estimativa para 2012). Isso equivale à renda familiar média (51.914 dólares) de 4,7 milhões de famílias nos Estados Unidos. Mais significativo ainda, isso equivale à renda familiar média (9.218 dólares) de mais de 26 milhões de famílias no mundo. Tudo isso com 20 dólares por mês. O que quero dizer é que a ação coletiva, mesmo com investimentos muito pequenos, cria um tsunami. Se o impacto puder ser aumentado para 3,5% de retorno ao ano, o resultado chega perto de 259 milhões. A 6%, passa de 300 milhões, aproximando-se do PIB da Venezuela, rica em petróleo. Isso é que é impacto! Mais ainda, esse dinheiro, na forma de empresas, na verdade transformou-se em incontáveis máquinas de dinheiro, que continuarão a produzir renda, ou seja, lucros produtivos, sem mais investimentos, indefinidamente.

Lembre-se, retorno de trinta, sessenta e cem por um na ilustração de Jesus (Mt 13.8) veio de um punhado de sementes. Usando o milho como exemplo, três sementes em cada cova produzem pelo menos um pé com três espigas, com aproximadamente 800 grãos. Isso é um retorno de 800 por um. Sementes são coisas poderosas, e é por isso que empreendedores e investidores chamam a capitalização de empresas iniciantes de capital de semente. Sabemos que nem todo pé de milho cresce bem nem produz três espigas com 800 grãos; essas são as médias na agricultura moderna. Do mesmo modo, nem todo negócio cresce nem gera um retorno de 800 por um do investimento. Bons agricultores, porém, com muita prática, conseguem lucros maiores!

A igreja tem uma segunda oportunidade de testemunhar a glória de Deus, garantindo que os fundos investidos nessas pequenas empresas produzem os melhores resultados, juntando empresários veteranos, experientes, com empreendedores iniciantes. Treinando, acompanhando, avaliando, as taxas de sucesso podem ser bem maiores.

A pergunta seguinte é o que tudo isso tem a ver com evangelização? A palavra grega traduzida por “evangelho”, que aparece mais de cem vezes no Novo Testamento, é euangelion, que significa simplesmente “boa notícia”. A declaração inicial de Jesus, identificando-se com a vinda do reino de Deus à terra, foi: “O Senhor me escolheu para levar boas notícias aos pobres e me enviou para anunciar a liberdade aos presos, dar vista aos cegos, libertar os que estão sendo oprimidos e anunciar que chegou o tempo em que o Senhor salvará o seu povo” (Lc 4.18-19). Quatro dos cinco temas desse discurso – os pobres, os presos, os oprimidos e o tempo de salvação – têm a ver com economia. A salvação é nosso ganho primordial quando conhecemos a Cristo, mas a subversão do sistema de elitismo cultural, social, econômico e político do mundo, que só alimenta ganância e opressão, estava incluída na encarnação de Cristo, na sua vinda entre nós para mostrar o fracasso de Israel em tornar-se o povo “sábio e entendido” que Deus quis que fosse como testemunha da sua glória às nações em volta (Dt 4.6). Se a proporção de falências de empresas novas de cristãos fosse bem menor que a proporção de todas as empresas novas, o mundo notaria. A revista de economia de Harvard publicaria artigos e a bondade de Deus seria repartida de maneira cada vez mais evidente.

A evangelização que se pratica hoje, em grande parte, perdeu de vista o verdadeiro impacto que o evangelho devia ter no mundo, e foi longe demais em direção a uma mentalidade escapista, abraçando doutrinas falhas de escatologia que negam a redenção de toda a criação, a intenção de Deus em sua missão no mundo. Ênfase demais tem sido dada à salvação pessoal como um evento único na vida do crente, sem cumprir o mandato de discipulado da Grande Comissão.

Discipulado cristão significa que levamos adiante o trabalho de Cristo no mundo, alimentando os que passam fome, vestindo os que têm pouca roupa, arranjando abrigos para os pobres, pelos meios mais eficientes que pudermos.

Nós, a igreja em economias desenvolvidas, temos a oportunidade de fazer a diferença em nosso mundo pela demonstração da bondade de Deus, isto é, dando testemunho da sua glória de maneiras tangíveis. Esse é o centro da evangelização, porque isso é boas notícias para os pobres, as boas notícias do reino Deus “na terra como é no céu”.
Estamos dispostos a entregar nossa vida, colocando nosso dinheiro, nosso tempo e nossas habilidades onde dizemos, como atos de “mais amor” para os quais fomos chamados (Jo 15.13)? Quem é o próximo que estamos prontos para amar como amamos a nós mesmos (Mt 22.39)?

Nosso ministério é revelar a glória de Deus ao mundo, demonstrando seu amor, servindo aos pobres em nome de Jesus Cristo por meio de mecanismos de mercado que aliviam a pobreza e capacitam as pessoas para trabalhar de modo produtivo, como Deus quis; a bondade de Deus leva ao arrependimento (Rm 2.4). Não basta compartilhar apenas com palavras o que Deus fez em nossa vida, nem mesmo proclamar as boas notícias de salvação em Cristo. Devemos, como Jesus fez, e todos somos chamados a segui-lo, ministrar realmente, alimentando, curando e libertando todos os filhos de Deus, revelando a graça e misericórdia de Deus: “Filhinhos, nosso amor não deve ser somente de palavras e de conversa. Deve ser um amor verdadeiro, que se mostra por meio de ações” (1Jo 3.18).

Escrito por: David B. Doty
Publicado Originalmente em: Eden's Bridge
Tradução: Hans Udo Fuchs
Versão em PDF disponível em artigos

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s